Paixão de pele

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O teto estrelado indicava que logo nasceria mais um dia muito quente. Mesmo ainda escuro, o calor esquentava a nudez que ecoava pelo quarto apertado. A cama pequena os deixava mais próximos e ditava uma mágica de cores que se misturavam de forma única.

Eles pouco se conheciam, mas ali uma eternidade de gozos fazia o contexto crescer por inteiro. Os gemidos abafados não aguçavam os ouvidos curiosos dos vizinhos. A sonoridade do todo apenas despertava instintos de peles em contraste. Suados a deslizar entre pernas e braços, abraços apertados, cheiros perfumados de tesão.

Era o início de uma história que atravessaria mares para ser sussurrada em outro sotaque. Para narrar muito mais do que a língua dele escreveu ao percorrer o corpo dela. Capítulos versados em pensamentos agitados como aquele quicar tão lento e ao mesmo tempo acelerado.

E o coração dela acelerava sempre mais e mais. O ritmo imposto por uma alma de artista a fez acreditar em um conto de fadas. O príncipe que cortou o oceano para resgatar um grande amor. Ela imaginava assim por querer continuar sentindo os sabores da boca daquelas palavras suaves e tentadoras.

Ela morava em uma torre. Uma quase Rapunzel, presa por tantas incertezas. Refém da própria dor. Das mágoas que outros amores, desamores, deixaram em forma de cicatriz. Trancava a porta e as janelas na tentativa de impedir o espalhar de sentimentos.

Não estava disposta a sentir. Não desejava o amargo dos finais. Tinha somente o desejo de se deixar atingir pelo tiro certeiro. Mas que arma é capaz de não fazer sangrar?

Ela na verdade tinha medo. Um medo que corroia cada contorno da própria beleza. Enormes olhos azuis faiscavam ao fitar o mundo. Infinito céu de luz, mas que por muito, deixava de brilhar tamanho o pavor de sentir. De errar. De se confundir.

Mas aquele quarto apertado tão logo se fez enorme de possibilidades, sonhadora. Permitiu-se criar asas para embarcar naquela paixão que se pronunciava. Não conseguiu resistir aos carinhos, as palavras. E foi despindo o corpo, em uma constante troca de energia.

Ele conduziu a dança como nenhum outro. Conheceu cada centímetro das curvas do corpo dela. Envolveram-se por inteiro. E o inverno ficou completamente banido do contexto. Ali dentro as baixas temperaturas haviam deixado de existir há horas.

Horas, dias, semana. Ponto final.

Não passaram do prólogo.

O amante tinha outro amor e a sonoridade das palavras doces, na verdade, clamavam por outro nome.

Ela juntou cada lágrima ao ouvir o pedido de desculpa e partiu. Agora o calor estava concentrado no rosto de traços delicados que se contorcia na tentativa de amenizar as projeções criadas apenas dentro dela.

No fundo, ela sempre sentiu o tom de aventura daquelas noites que sobre o teto de estrelas esquentava a nudez que ecoava pelo quarto apertado. Apertado demais!

A cama pequena os deixava mais próximos e ditava uma mágica de cores que se misturavam de forma única. E que davam o tom exato de um momento. Somente!

Eles pouco se conheciam, mas ali uma eternidade de gozos fazia o contexto crescer por inteiro. Passageiro!

Suados a deslizar entre pernas e braços, abraços apertados. Cheiros perfumados de tesão que já tinham toque de saudade.

Paixão de pele. Apenas paixão de peles em contraste que precisaram deixar os instintos de lado para que o verdadeiro amor reinasse.

Ela não mais chorou.

Estava um tanto admirada por ter conhecido um homem que, até do outro lado do oceano, não pode esquecer a dona dos batimentos mais belos do coração.

E no quarto apertado, o inverno voltou a fazer morada.

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