Pacto velado

10:30


Ele tinha as mãos fortes, o corpo quente e marcas rabiscadas em ambos os braços que circulavam os quadris das moças com facilidade. Os olhos castanhos carregavam mistério, segredos e medos. Era um homem de poucas palavras, sempre com um sorriso no canto do rosto a denunciar ares de um quase refém.

Dono da situação, não abaixava a cabeça para nada. Senhor de si, comandava o mundo, sobretudo, quando o assunto soletrava a palavra mulher. Colecionava números de telefones e conquistas. Discava com facilidade para as amantes que se colocavam fácil de quatro.

Discreto, ia comendo quieto, no clichê do cafajeste de folhetim antigo, tramando encontros desertos. Não escondia o fato de ser gato arisco, daqueles que no meio da noite salta rápido e dá meia volta. Agora, por ela, não esperava.

Os ares de quase refém deixaram de ser ares, deixaram de ser quase, passaram a ser fato. Completamente refém dos encantos dela. Só ela era capaz de fazê-lo sentir aquele calafrio a rodopiar dos pés a cabeça. Arrepios que denunciavam uma fraqueza adocicada como o beijo com gosto de volta logo, mas demora um pouco, porque não quero me apaixonar.

Tarde demais.

Já estava apaixonado por cada centímetro do corpo da menina de riso fácil. Ela era sedutora na medida certa, se mexia exatamente da maneira que o deixava rendido. E de repente, descompassava o passo de tal forma que a redenção tornava-se ainda mais completa.

Eles frequentavam o mesmo bar. E foi exatamente nesse lugar que ele a fitou pela primeira vez. Ficou preso aquela boca. Como podia falar tanto? Não conseguia prestar atenção nas palavras que saiam desenfreadas daqueles contornos avermelhados. De qualquer forma, se esforçava para prestar atenção, não queria que ela voltasse a dançar com as amigas.

Mas ela sempre voltava. E ele lá ficava, embasbacado. Obrigado a admirá-la de canto de olho para que ninguém percebesse o tamanho do poder daquela garota. Embriagado sem nem ao menos beber um gole de álcool. Estava perdido.

Sedutora, ela ia arrancando outros olhares, ouvindo elogios e impropérios, mas nunca se intimidava. Encarava, esbravejava e voltava a dançar até o chão. Rodopiava até cair de dores nos pés. Chegava em casa aos prantos. Câimbra nas pernas. Contorcia-se em alongamentos e gritinhos, prometendo nunca mais beber. E depois aguava sem parar. Até soluçar.

Ela guardava dores tão profundas que era mais refém do que qualquer um. Refém do pretérito. Passado regado por tristeza. Um ontem de eterno vazio que ela buscava preencher a todo custo. Há muito deixara de acreditar no amor.

O fogo da lua em Áries, entretanto, clamava por combustível. Precisava sentir-se aquecida, mesmo que fosse no abraço daquele que circulava a cintura de tantas outras. Melhor assim, cúmplices da própria ilusão.

Em noites frias, ela ligava, ele corria. Outras vezes, fazia de conta que não a notava. Embriagado por tantos sabores, enquanto ela dormia sem carinho, embalada pela memória. Dominada por saudade. 

Ele não era o modelo de homem perfeito. Tão pouco ela Afrodite. E ambos distraiam a profundidade da alma com encontros enigmáticos. Conectavam corpos como poucos poderiam ser capazes de fazer. Eletricidade pura.

Os gemidos controlados por um descontrole da vontade que é beber água no deserto. Lua nova crescente de paixão. Suados, molhados, energizados, exaustos.

Ela sorria e resmungava palavras doces. Ele rendido, perdia-se no profundo azul daqueles olhos de sedução. Logo correria dali, pois jamais permitiria um atravessar de fronteira. Não queria amá-la. Não podia.

Tinham um pacto velado.

No fundo, ele sabia. Ela nunca escondeu. E vice-versa.

Calorosa, adorava deitar sobre e sob o corpo dele. Tinha um desejo fervendo entre as coxas. Era apaixonada por aquela sintonia carnal. Queria permanecer naquele laço por muito mais. Mas ela também não podia.

Era impossível adormecer. O sono dela, a paz de sonhar pertencia a outro. Então, de mansinho pedia: por favor, vá!

E ele? Bom, ele tinha uma coleção de números para discar.

Justo!

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